BOLETIM INGÊNUO 3.0 – COVID-19 (03/12/2021)

André Eterovic (CCNH-UFABC)

andre.eterovic@ufabc.edu.br

Introdução

Mesmo com vacinas disponíveis, o conhecimento do estado da pandemia de COVID-19 em diferentes escalas espaciais e temporais pode subsidiar a tomada de decisões referentes a tentativas de minimizar seus efeitos adversos. A parametrização de modelos que permitem a estimativa de cenários futuros para esse manejo depende de dados robustos, nem sempre disponíveis. Registros do número de casos confirmados e mortes em plataformas de dados públicos permitem a comparação de suas tendências entre países, estados e cidades brasileiras. A abordagem visual desses padrões é suficiente para uma avaliação preliminar da questão, requerendo uma fração mínima da capacidade técnica envolvida na elaboração de modelos epidemiológicos complexos. O termo “ingênuo” do título refere-se a uma abordagem informal, mas não desprovida de crédito. Essa “terceira geração” do Boletim atualiza a forma de classificação da curva epidêmica das localidades.

Métodos

Dados semanais referentes a países foram obtidos na plataforma “European Centre for Disease Prevention and Control” (ECDC) [1]. Dados diários referentes a estados e cidades brasileiras foram obtidos na plataforma Brasil.io [2]. Foram selecionados os top-80 países, os 27 estados e as top-80 cidades brasileiras com o maior número de mortes acumuladas até o dia da análise. As variáveis de referência empregadas foram as porcentagens do número de mortes e de casos confirmados em relação aos respectivos totais acumulados até o dia da análise. Foram usadas duas escalas temporais: toda a epidemia (para os países, desde o dia 01/01/20; para os estados e cidades brasileiras, desde o dia 25/02/20 – registro do primeiro caso) e as últimas oito semanas (56 dias ~ 2 meses). Para as porcentagens de mortes nas últimas oito semanas, foram ajustadas curvas de regressão linear como referência para a tendência, usada na classificação colorida dos gráficos.

Resultados

Quando avaliadas na maior janela temporal (lado esquerdo da figura modelo), localidades no início da epidemia apresentam curvas sigmoidais, com tendência a um platô de valores acumulados (a). Uma nova sigmoidal iniciando-se a partir desse platô indica uma nova onda da doença. Localidades em que a taxa de infecção ainda é alta apresentam curvas exponenciais, sem tendência evidente à estabilização (b, c). Em janelas temporais menores (lado direito da figura modelo), a tendência linear é satisfatória para avaliar o aumento de casos confirmados e de mortes nesses intervalos, possibilitando a comparação entre localidades. Quanto maior sua inclinação, maior é a taxa de incremento de casos e de óbitos (na sequência, localidades a, b e c).

As localidades foram classificadas em três categorias referentes a inclinação da curva de tendência linear para as últimas oito semanas:

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Para visualizar os boletins em configurações anteriores, acesse https://wp.me/pbxlWR-ji.

Referências

[1]  https://www.ecdc.europa.eu/en/publications-data/data-national-14-day-notification-rate-covid-19

[2] https://brasil.io/dataset/covid19/

Países: toda a epidemia (de 01/01/20 a 02/12/21).

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BOLETIM INGÊNUO 3.0 – COVID-19 (26/11/2021)

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BOLETIM INGÊNUO 3.0 – COVID-19 (19/11/2021)

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A INVENÇÃO DA RODA: EXCLUSIVIDADE DOS HUMANOS?

Frequentemente a roda é mencionada como uma das invenções mais importantes da humanidade. É difícil precisarmos o momento de sua descoberta. Possivelmente foi concebida em algum momento a partir de 50.000 antes do presente, quando os humanos viveram a Explosão Criativa do Paleolítico Superior (ver aqui). No entanto, a evidência mais antiga do seu uso para locomoção é de 5.100 a 5.300 anos atrás, da antiga cidade de Uruk, na Mesopotâmia.

Pictografia em tabletes de barro encontrada em Uruk, na antiga Mesopotâmia (atual Iraque ), aponta para o uso de veículos com rodas. Datado de cerca de 3.300-3.100 AC.

O registro inequívoco mais antigo de uma roda foi encontrado na Ljubljana, próxima da Eslovenia e tem a mesma idade dos registros da Mesopotâmia.

Essa roda de madeira foi encontrada nos pântanos de Ljubljana a 20 quilômetros da Eslovênia, em 2002. Datação por radiocarbono, mostrou que tem aproximadamente 5.200 anos, o que a torna a roda mais antiga já descoberta.

Ao longo da história, grande parte das invenções humanas foi inspirada no mundo natural (e.g. o avião a partir das aves planadoras), mas a roda para locomoção é usualmente reconhecida como uma inovação 100% creditada ao Homo sapiens. Na realidade, podemos dizer que a natureza chegou perto várias vezes, afinal as plantas Tumbleweeds, os besouros de esterco (Scarabaeidae), a aranha-roda dourada (Carparachne aureoflava), o crustáceo estomatópode (Nannosquilla decemspinosa) e o pangolim (Manis spp.) usam ou podem usar o sistema rotativo de locomoção. Veja a seguir:

Tumbleweed é parte de plantas (de certas espécies) que se desprende de suas raízes e é movida pelo vento, espalhando assim sementes pelo caminho.
10 Facts About Dung Beetles | Wilderness Safaris
Os besouros do esterco, cosmopolitas, enrolam fezes de animais em bolas, as quais são assim transportadas para os seus ninhos para a alimentação de suas larvas.
A aranha-roda dourada (Carparachne aureoflava) do deserto da Namíbia dobra as pernas e rola pelas dunas de areia para escapar das vespas predadoras.
Acima, o aspecto do crustáceo estomatópode Nannosquilla decemspinosa. Em baixo, o animal durante a locomoção em roda.
O pangolim (Manis sp.), da África e Ásia, tem o comportamento de se enrolar como uma bola e eventualmente pode rolar para fugir de predadores.

O motor que aciona o flagelo bacteriano é a única estrutura verdadeira de roda e eixo conhecida em biologia e podemos dizer que esses microorganismos “inventaram” a roda muito antes dos humanos. Essas bactérias giram o flagelo usando um motor molecular em forma de roda.

ToughSF na Twitteru: "While the bacterial flagellar motor is an incredible  piece of biological machinery approaching 100% chemical to mechanical  conversion efficiency, it is used very poorly and the overall propulsive  efficiency
Estrutura da roda biológica que movimenta o flagelo que propulsiona muitas bactérias .

Há mais de 5.000 anos os humanos não poderiam ter ideia do mecanismo de roda e eixo de uma bactéria flagelada, mas talvez tenham se inspirado em um besouro do esterco para criarem a estrutura que mudou o rumo da humanidade.

REFERÊNCIAS

Bakker, J., Kruk, J., Lanting, A., & Milisauskas, S. (1999). The earliest evidence of wheeled vehicles in Europe and the Near East. Antiquity, 73(282), 778-790. doi:10.1017/S0003598X00065522

Gasser, Aleksander (March 2003). “World’s Oldest Wheel Found in Slovenia”. Government Communication Office of the Republic of Slovenia. Archived from the original on 2016-08-26. Retrieved 2015-03-07.

LaBarbera, M. (1983). Why the Wheels Won’t Go. The American Naturalist, 121(3), 395–408. http://www.jstor.org/stable/2461157

UNIVERSO ESTÁ SE EXPANDINDO! COMO SABEMOS DISSO?

A maioria das galáxias (que agrupam bilhões de estrelas) está se afastando de nós. Conclui-se que o universo está em plena expansão. Mas como sabemos se uma galáxia está se aproximando ou se afastando de nós? O efeito Doppler explica isso facilmente!

O EFEITO DOPPLER. O som emitido de uma fonte estacionária consiste de ondas que se propagam em todas as todas as direções com uma frequência constante. As ondas são concêntricas e espaçadas igualmente. Se a fonte emissora de ondas se mover, o padrão parecerá diferente. As ondas se agrupam (se aproximam) na frente da fonte emissora e ficam mais espaçadas atrás dela.Tal efeito pode ser percebido ao escutarmos o som (uma onda mecânica) emitido por uma ambulância em alta velocidade. Quando a ambulância se aproxima de nós o som se torna mais agudo (“ondas se agrupam”), mas fica mais grave (“ondas mais espaçadas”) quando a ambulância se afasta.

O DESVIO DA COR DAS GALÁXIAS. A luz emitida pelas galáxias é uma onda eletromagnética. O movimento de uma fonte emissora de onda eletromagnética também produz o efeito Doppler. No caso do som, ondas mais agrupadas correspondem a um tom mais agudo, que tem maior frequência. Já as mais espaçadas equivalem a um som mais grave, de menor frequência. No caso de uma onda eletromagnética, as ondas com maior frequência possuem tons azulados e as de menor são avermelhadas.Andrômeda, a galáxia-irmã, tem um desvio para o azul ao longo do tempo. Portanto, ela está se aproximando e deve colidir com nossa galáxia daqui a bilhões de anos. Galáxias próximas entre si podem ser atraídas pelo efeito da gravidade. Porém, a maior parte das galáxias apresenta um desvio para o vermelho. Assim, não há dúvida elas estão se afastando de nós e o universo está se expandindo!

POR QUE AS ESTRELAS CINTILAM E OS PLANETAS NÃO?

Podemos diferenciar um planeta de uma estrela por apresentarem trajetórias distintas no céu. No entanto, é possível reconhecer cada um desses astros observando atentamente a sua luz. As estrelas cintilam (piscam), ao passo que os planetas geralmente brilham continuamente. Para entendermos bem esse fenômeno basta sabermos o que é refração.

REFRAÇÃO

A luz se propaga no vácuo a velocidade de aproximadamente 300.000 km/s. Ao se propagar em outros meios ela sofre uma redução no seu valor. A luz possui velocidade discretamente menor no ar atmosférico. Na água a diferença é bem maior podendo ser de 225.000 Km/s e no óleo por volta de 205.000 km/s. A mudança de velocidade nesses diferentes meios causa uma desvio da direção do feixe de luz. É esse fenômeno que chamamos refração. Podemos constatar a refração fazendo o experimento abaixo:

O ar, a água e o óleo possuem densidades e índices de refração distintos. Ao mergulhar um lápis ou pincel com água e óleo podemos constatar os desvios do feixe de luz .

A atmosfera possui várias camadas de temperaturas e densidades. Bolsões de ar com temperatura e densidades diferentes possuem índices de refração distintos que causam desvios no trajeto do feixe de luz da estrela. Isso faz com que a luz da estrela viaje em zigue-zague através da atmosfera. Esses bolsões de ar se deslocam entre si e causam o efeito de piscar das estrelas.

Uma estrela parece piscar porque o seu feixe de luz, à medida que passa pela atmosfera, é curvado e distorcido devido a refração de camadas de temperaturas e densidades do ar que estão em movimento.

POR QUE OS PLANETAS NÃO CINTILAM?

Como as estrelas estão extremamente distantes da Terra elas são percebidas como pontos no céu. Esse estreito feixe é facilmente perturbado pela atmosfera turbulenta e refratária. A luz de um planeta também é refratada várias vezes na atmosfera. No entanto, por se tratar de um feixe mais largo, os zigue-zagues da luz de seu disco se anulam. Assim, o nosso cérebro interpreta isso como um brilho constante, sem cintilação.

As estrelas, extremamente distantes, são pontuais e as distorções de seu estreito feixe de luz na atmosfera são captadas por nossos olhos. Já os planetas estão próximos e a luz solar refletida neles atravessa a atmosfera em um feixe de luz muito mais espesso, não sendo afetado de forma tão perceptível pelos efeitos das distorções (refrações nas várias camadas de ar).

Portanto, as estrelas não piscam. A cintilação delas é apenas um efeito causado pela atmosfera. No espaço, fora da atmosfera terrestre, as estrelas apresentam um brilho constante.

O INCRÍVEL VOO DO DENTE-DE LEÃO

O dente-de-leão (Taraxacum officinale) é uma planta familiar para maioria das pessoas. Além de ser considerada uma erva-daninha, comum em gramados, quem já não quis soprar essas bolas redondas cheias de tufos? Embora muitos chamem essa bolas de flor, na realidade as flores dessa espécie são amarelas. A flor do dente-de-leão é uma inflorescência, ou seja, é um agrupamento de várias flores sobre o pedúnculo.

Significado de Flor Dente-de-leão (O que é, Conceito e Definição) -  Significados
A flor do dente-de-leão é na realidade uma inflorescência, formada pelo agrupamento de várias pequenas flores.

São essas diversas flores do dente-de-leão que dão origem ao cacho globoso formado por várias hastes, que contém o fruto e a semente.

Infrutescência de Asteraceae, podendo observarem-se os papilhos de várias  cipselas. Dente-de-leão - Banco de Imagens da Casa das Ciências
Após fecundadas as flores dão origem ao um cacho globoso cheio de frutos (infrutescência), que carregam as sementes.

O fruto seco com a semente em seu interior ficam na base de cada haste e acima desta os tufos, que é chamado de pappus.

Essa estrutura pode ser facilmente carregada pelo vento. Esse mecanismo de voo passivo é altamente eficaz, permitindo a dispersão das sementes a distâncias formidáveis. A maioria das sementes de dente-de-leão, após um sopro, provavelmente pousa dentro do limite de 2 metros. No entanto, em condições quentes, secas e com muito vento, essas sementes emplumadas podem se dispersar ao longo de 30 km e ocasionalmente até 150 km. A alta eficiência do voo das sementes dessa planta, nativa da Europa e da Ásia, certamente auxiliou em sua dispersão nas Américas, África e Oceania. 

MAS O QUE FAZ ESSA ESTRUTURA TER UM VOO TÃO EFICIENTE?

Pesquisadores da Universidade de Edimburgo, do Reino Unido, estudaram o incrível voo das sementes do dente-de-leão. Para isso , os cientistas construíram um túnel de vento vertical, com um ventilador na base. Então colocaram a semente em meio ao fluxo de ar que saia pelo túnel. Ao variar a velocidade do vento eles deixaram a semente estacionada em meio ao fluxo de ar.

Utilizando câmeras de alta e baixa velocidade e iluminando a região com um laser foi possível observar o que acontece com o ar que passa pelo tufo de pelos do dente-de-leão.

Artefato para filmar o voo da semente e o ar do dente-de-leão

As filmagens revelaram que o ar passa ao redor do tufo de filamentos e entre os filamentos. A combinação desses fluxos de ar provoca um redemoinho (vórtice) acima do pappus, criando uma região de baixa pressão. A baixa pressão puxa a semente para cima, diminuindo muito a velocidade com que ela cai em direção ao solo. 

Imagens obtidas das filmagens que mostram a formação do redemoinho (vórtice) acima do pappus, que puxa toda a estrutura para cima, e reduz a velocidade de queda da semente.

A grande economia desse tipo de voo é que essas hastes emplumadas podem usar apenas 10% da carga de uma estrutura sólida similar a de um paraquedas.

O mecanismo de sustentação de voo da semente do dente-de-leão é completamente distinto de outros observados na natureza e copiados pelos humanos. Talvez esse mecanismo singular possa inspirar engenheiros a bolarem máquinas voadoras muito distintas das que conhecemos.

Veja aqui o vídeo que exibe as filmagens e o experimento desenvolvido pelo cientistas.

***E em breve leia aqui o incrível voo do dente-de-leão II

REFERÊNCIA:

Cummins, C., Seale, M., Macente, A. et al. A separated vortex ring underlies the flight of the dandelion. Nature 562, 414–418 (2018). https://doi.org/10.1038/s41586-018-0604-2

DOIS GRANDES PASSOS PARA CONSTRUÇÃO DO MOTOR ELÉTRICO E O PRINCÍPIO DO SEU FUNCIONAMENTO

O físico Hans Christian Oersted descobriu uma propriedade curiosa da corrente elétrica gerada por uma pilha elétrica, inventada duas décadas antes por Alessandro Volta. Ao colocar a agulha magnética de uma bússola nas proximidades de um fio com corrente elétrica ele verificou que ela mudava a sua posição. Oersted concluiu que o movimento da agulha era devido a formação de um campo magnético em torno do fio que conduzia corrente elétrica.

Cargas elétricas em movimento geram um campo magnético! Podemos “visualizar” a presença do campo magnético, gerado pelo movimento de cargas elétricas em um fio, se o fizermos atravessar por um anteparo com limalha de ferro (veja abaixo)

Top 30 Electric Effect GIFs | Find the best GIF on Gfycat
Colocando limalha de ferro em um anteparo por onde passa um fio conduzindo eletricidade é possível visualizar as linhas do campo magnético gerado pela corrente elétrica.

O físico Michael Faraday, sabendo que corrente elétrica gera um campo magnético, construiu um dispositivo que produzia movimento. O dispositivo apresentava um fio de cobre pendurado e que ficava em contato com mercúrio (condutor de eletricidade) dentro de um recipiente. No centro do recipiente havia um imã (que possui um campo magnético). Ao fornecer corrente elétrica ao fio ele gerava um campo magnético. Em função da existência dos dois campos magnéticos, o fio produzia um movimento circular.

É por meio desse princípio que hoje temos a nossa disposição muitos equipamentos que facilitam o nosso dia a dia. O que seria de nossas vidas sem as descobertas de Oersted, Faraday e inúmeros outros cientistas que os antecederam e os sucederam?

Alguns aparelhos que usam o motor elétrico.

Assista abaixo, em 4 minutos, a construção de um motor de Faraday caseiro:

A BARRA DE FERRO QUE AJUDOU A ENTENDER MELHOR O NOSSO CÉREBRO

Em 1848, o trabalhador Phineas Gage, de 25 anos, estava explodindo pedras na construção de uma linha ferroviária em Cavendish, nos EUA. Uma dessas explosões causou um acidente, fazendo uma barra de ferro atravessar a sua face. Apesar da perda de um olho e de parte do cérebro, Gage se recuperou e voltou a trabalhar.

Gage era uma pessoa responsável, socialmente bem adaptado e bem quisto pelos colegas. Após o acidente, não foi notada qualquer alteração em sua inteligência e memória. Porém, Gage não era mais o mesmo! Ele passou a ser grosseiro, a ofender pessoas ao seu redor e perdeu o senso de responsabilidade.

O médico John Harlow, que o atendeu, relatou a relação da perda de massa cefálica com a mudança de personalidade. Quase 150 anos depois do acidente, medidas do crânio de Gage (que foi preservado) e modernas técnicas de neuroimagem foram usadas para reconstituir o acidente e determinar a localização da lesão (ver figura).

O dano do cérebro de Gage envolveu a região do córtex pré-frontal esquerdo e direito. Tal lesão ocasiona um defeito na tomada de decisão racional e no processamento da emoção.

“A história de Gage foi o começo histórico do estudo da base biológica do comportamento” (Antonio Damasio, neurocientista e autor do estudo que reconstituiu o acidente).

REFERÊNCIA:

H Damasio, T Grabowski, R Frank, AM Galaburda, AR Damasio. The return of Phineas Gage: clues about the brain from the skull of a famous patient. Science 1994. Vol. 264, Issue 5162, pp. 1102-110.

SINUS PRÉ-AURICULAR, UM TRAÇO DE NOSSOS ANCESTRAIS?

Os peixes possuem fendas laterais próximas da cabeça que permitem a circulação de água para oxigenar as suas brânquias. Tais estruturas chamadas arcos e fendas branquiais correspondem às dobras abaixo da cabeça de seus embriões, que sofrem poucas modificações até o nascimento. Os arcos e fendas branquiais também aparecem nos primeiros estágios dos embriões de todos os vertebrados terrestres, incluindo os humanos. Ao longo da evolução dos vertebrados terrestres esses arcos e fendas branquiais se modificaram e deram origem a estruturas relacionadas ao ouvido, mandíbula e regiões da faringe. A presença dessas estruturas mostra a ancestralidade comum de todos os vertebrados terrestres. Viemos todos de um peixe que se aventurou ou foi forçado a viver fora da água há cerca de 400 milhões de anos. Embriões humanos e de outros vertebrados compartilham o plano corporal básico dos peixes. Normalmente as fendas branquiais se fecham ao longo do desenvolvimento, mas em alguns caso pode sobrar um pequeno orifício. Isso é verificado no pescoço de alguns recém-nascidos e pode ser corrigido cirurgicamente. Além destes casos, cerca de 1% das pessoas possuem um orifício na frente da orelha, chamado sinus pré-auricular. Atribui-se a existência desse buraquinho ao fechamento incompleto da fenda branquial mais anterior do embrião.

ORIENTANDO AS NOSSAS CRIANÇAS

Muitas crianças (e mesmo adultos) não sabem indicar onde estão os pontos cardeais (norte, sul, leste, oeste). Já, usando uma bússola, todos conseguem dizer prontamente. Isso porque o seu ponteiro magnetizado aponta para o norte geográfico*, que fica próximo do polo sul magnético da Terra.

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O ponteiro da bússola, que é um pequeno imã, sofre atração do campo magnético da Terra, que é um grande ímã. Entenda aqui por que a Terra é um ímã gigante. Os ímãs possuem dois polos que podem se atrair ou se repelir.

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Dessa forma, o ponteiro da bússola se alinha ao campo magnético da Terra, ou seja, o seu polo sul se volta para o polo norte magnético da Terra e o seu polo norte (geralmente a parte vermelha do ponteiro) se volta para o polo sul magnético da Terra, o que corresponde aproximadamente ao polo norte geográfico.

Os celulares possuem uma bússola e, por meio de aplicativos, podemos instalar uma similar às manuais. No entanto, hoje em dia, o modo mais usual é o emprego do GPS (Global Positioning System, em português, “Sistema de Posicionamento Global”) um sistema em que o celular recebe sinais de satélites e que, além de indicar os pontos cardeais, fornece informações das coordenadas geográficas e altitude.

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O GPS fornece informações dos pontos cardeais, das coordenadas geográficas (latitude e longitude) e da altitude.

MAS COMO PODEMOS NOS ORIENTAR SEM ESSES DISPOSITIVOS?

O Sol nasce no leste e se põe no oeste. Se apontarmos o nosso braço direito para o local onde é o nascer do Sol (leste) e o braço esquerdo para o poente (oeste) teremos o norte em nossa frente e o sul em nossas costas.

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Na realidade, o ponto cardeal leste e oeste será determinado com mais precisão dessa forma no outono e na primavera. Sendo mais exato ainda teríamos que observar o nascente e poente no início do outono ou da primavera (por volta de 20 de março ou 21 de setembro), nos chamados solstícios – veja aqui e aqui. A inclinação do eixo da Terra em relação a sua órbita ocasiona uma mudança na linha de deslocamento do sol. Dessa forma, no inverno o Sol nasce e se põe mais ao norte e no verão mais ao sul.

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E COMO NOS ORIENTAMOS À NOITE?

Podemos nos orientar com a Lua do mesmo modo que fazemos como o Sol, já que ela nasce no leste e se põe a oeste. Mas é possível nos orientarmos pelas estrelas. No hemisfério sul isso pode ser feito com o auxílio da constelação mais conhecida por aqui, que é a do Cruzeiro do Sul. Não é correto dizer que o Cruzeiro do Sul aponta para o sul geográfico da Terra, uma vez que o movimento das estrelas no céu é circular, como mostra a figura abaixo.

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No entanto, o Cruzeiro do Sul pode nos ajudar a localizar facilmente o polo sul geográfico, já que o seu “braço” maior aponta para o polo sul celeste, e o polo sul geográfico terrestre está localizado logo abaixo. Para determinarmos o polo sul celeste, calcule 4 vezes e meia o eixo mais comprido do Cruzeiro do Sul, aí estará o polo sul celeste e o polo sul geográfico abaixo desse ponto. Basta traçarmos uma linha reta no sentido do horizonte.

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Hoje em dia a bússola e o GPS permitem a nossa rápida orientação, mas por milhares de anos nos orientamos olhando para o céu. O celular nos desconectou um pouco do mundo real e muitos ainda não compreendem alguns princípios básicos. É sempre saudável trazermos nossas crianças de volta a essa realidade, que no passado despertou a curiosidade de cientistas, culminando com inúmeras descobertas. Tais descobertas nos fizeram compreender melhor o universo e revolucionaram o mundo! Precisamos que nossas crianças continuem fazendo o mundo avançar!

* Na realidade isso é uma simplificação, pois o ponteiro magnético da bússola fica orientado com a linha de indução magnética da Terra, cuja direção varia um pouco entre localidades.

COMO SABEMOS QUE A LUZ (TAMBÉM!) É UMA ONDA

No século XVII Isaac Newton propôs que a natureza física da luz era material, ou seja, ela consistia na propagação de um fluxo de partículas microscópicas. Posteriormente, outros cientistas defenderam a natureza ondulatória da luz. Foi somente no início do século XIX que o médico e físico Thomas Young por meio de uma série de estudos demonstrou a natureza ondulatória da luz. O mais famoso foi o experimento da dupla fenda.

O EXPERIMENTO DA DUPLA FENDA – Na experiência de Young, são utilizados três anteparos. O primeiro possui uma fenda, o segundo tem duas e no último ocorre a projeção da luz. Quando passa pela primeira fenda a luz sofre difração. A difração é a capacidade da onda se espalhar e contornar obstáculos (se estivermos em uma sala escura e houver um pequeno furinho que permite a entrada de luminosidade externa podemos constatar tal fenômeno). Veja o fenômeno de difração nos links: https://www2.dawsoncollege.qc.ca/…/Light_diffraction-2.gif e https://global.canon/en/technology/s_labo/light/001/03.html

Outro aspecto ondulatório da luz pode ser verificado quando ela atravessa as duas fendas do segundo anteparo. Após a luz passar pelas duas fendas, acontece o fenômeno de interferência de ondas. A interferência pode ser construtiva ou destrutiva. Na construtiva as ondas “se somam” o que resulta no aumento de intensidade (ver figura). Na interferência destrutiva as ondas podem se anular. Como consequência da interferência, o resultado da projeção da luz que atravessa as duas fendas é um conjunto de faixas bem iluminadas alternadas por áreas mal iluminadas (franjas, ver figura). Veja como é o fenômeno por meio de uma analogia com ondas de água: https://www.youtube.com/watch?v=0cztIj1m7e4

O experimento de Young demonstrou de modo inquestionável a natureza ondulatória da luz. Porém, no início do século passado o físico Albert Einstein, para a explicar o efeito fotoelétrico, considerou que luz não se comportava como uma onda, mas sim como uma partícula, o fóton! Isso lhe rendeu o prêmio Nobel de 1921. Bem, mas isso é outra história. Hoje admite-se que a luz ora se comporta como onda, ora como partícula!

VÍDEO DO EXPERIMENTO DAS DUAS FENDAS DE YOUNG: https://www.ashleybucsek.com/x-ray-diffraction-lesson